Como costumes são mantidos e se perdem as inovações, ele deitava toda manhã na grama baixa do quintal da obra, era pedreiro o Sebastião, veias de cimento e marcas de contruções aderiram em seu corpo, rígido.
O sol ardia suavemente por cima de um boné velho que lhe cobria os olhos, um azul desbotado se encaixando com a pele cor de terra, barro vermelho. Lá deitado e com a mente reduzida em Deus, cantava suas orações, cantigas bonitas e alguma melodia assobiada, toda manhã de todo ano, todo março, onze mêses, luto.
Sim, junho não contava, junho não cantava junt'ele, nesse mês, ano passado, sua bicicleta deixara de andar, a corrente estronchou, o pedal caiu, era inconsertável.
Inconserto também adquiriu seu sentimentalismo atrofiado, afinal, a quem amaria um pedreido, um rudimentar, amava sua bicicleta, dedicava-a horas naquele quintal de obra, envernizando, cuidando.
E por tal lapso temporal, Sebsatião desrregulou-se em horários, não sabia onde ou quando estava, se estava, apenas vai àquela obra deitar na grama esverdeada, obra na qual não trabalha e da qual é expulso toda manhã, ele vive de julho a maio, somente, vive ou viveu, nesse playback contínuo não sabe-se tal, acho mais que repete.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Fragmentos
Derrepente a mesa estava marcada, muitas xícaras de café passaram alí, cada uma formando seu próprio círculo, um fim, um meio e inúmeros começos.
O cinzeiro também acumulara quilos de cinzas, quimeradas lágrimas evaporadas, espalhadas em um recipiente inopaco, transparecendo toda a mágua de uma vida.
E meus pelos eriçados à percepção de que fui guardando esses e muit'outros venenos, esculpindo-os no vaso que sou, durante dezoito anos de sobrevivência e quase-morte, anos do vazio que sobreviveu em meu interior inerte.
O cinzeiro também acumulara quilos de cinzas, quimeradas lágrimas evaporadas, espalhadas em um recipiente inopaco, transparecendo toda a mágua de uma vida.
E meus pelos eriçados à percepção de que fui guardando esses e muit'outros venenos, esculpindo-os no vaso que sou, durante dezoito anos de sobrevivência e quase-morte, anos do vazio que sobreviveu em meu interior inerte.
sábado, 16 de outubro de 2010
Uma dose
Há de ser de doença, esse definho do sentimentalismo, ninguém se apega, ou ao menos tenta se apegar, escolhem uma tradução exata do egoísmo para seguir, e a cada um que conheço me parece tão mais belo o cancro que a possibilidade. Ser extremo cansa, procurar um esforço inexistente para dele exalir uma tolerância ínfima ao que me desagrada, aos mínimos que recebi como barganha por me expor tanto, e eu não sou capaz de copreender esses cascos, distribuindo coices e distanciamentos, qual o sentido desse asco por abraços, da ojeriza por sinceridade, como se se demonstrar um romantismo fosse a pior das epidemias, e nem sei se epidemia é nome pr'isso, já que de modo algum contamina outras pessoas.
domingo, 19 de setembro de 2010
Confessionário dois.
Ultimamente eu venho me encaixando, estou ligeiramente satisfeito. Não quero de modo algum estar realizado ou contente, mas parece fácil sentar e observar o comportamento das pessoas evoluir por si. É simples, se se para de seguir uma ideologia de exclamação e adquire a posição de uma vírgula, o ser escolhe tornar-se uma pausa sóbria de análise em contraste com a antiga forma de interrupção e ordem.
A vírgula representa uma indiferença à conclusão, no texto, um observador passivo que vez outra encerra meio raciocínio pondo-se a separar de maneira calma e reflexiva, dois fragmentos de sapiência. Se você se encontra como intermediário entre a finalidade e o meio, está ciente dos dois, e terá como estudá-los.
O ponto de exclamação é tosco e se posta no término do texto, trogloditando o imperativo e expressando-se de forma cega. Não tem uma visão complexa do período anteposto e resume-se à um breve momento de existência e raiva.
Suponho, então, que devemos tornarmo-nos vírgulas, e consequentemente transcendentais, estando presentes de forma sutil no texto que reconhecemos como sobrevida, assim, se acordarmos com vontades exclamativas, seremos de novo irracionais, gritaremos à vontade e devemos morrer pós isso, trajados de indigentes à capacidade mental.
A vírgula representa uma indiferença à conclusão, no texto, um observador passivo que vez outra encerra meio raciocínio pondo-se a separar de maneira calma e reflexiva, dois fragmentos de sapiência. Se você se encontra como intermediário entre a finalidade e o meio, está ciente dos dois, e terá como estudá-los.
O ponto de exclamação é tosco e se posta no término do texto, trogloditando o imperativo e expressando-se de forma cega. Não tem uma visão complexa do período anteposto e resume-se à um breve momento de existência e raiva.
Suponho, então, que devemos tornarmo-nos vírgulas, e consequentemente transcendentais, estando presentes de forma sutil no texto que reconhecemos como sobrevida, assim, se acordarmos com vontades exclamativas, seremos de novo irracionais, gritaremos à vontade e devemos morrer pós isso, trajados de indigentes à capacidade mental.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Impressão
Uma pequena fixação por importância, gestos simples que demonstram insegurança, arte e talvez demasiada carência, faziam Ana distanciar-se das grades da janela. Essa fobia, qual não outra, enterrava no silêncio de seu quarto a percepção surda de uma coragem atrofiada.
Trauma pouco cerrou a beleza de Ana em antigos retratos felizes, amigos, família, namorado, tudo findava continuamente em uma vasilha de uvas e qualquer livro ruim.
Arrastava horas de sono e cafeina, estando sempre alerta demais ou dormindo, os maiores extremos de sua vida complicada e de seu enorme mundo, uma sala, dois quartos, dois banheiros e uma cozinha.
Uma maior excitação marcou o dia em que perdera a guerra, recebeu um envelope amarelo, estranhou e o abriu com rapidez, uma carta descrevendo carinho e respeito, palavras esquecidas por ela a muito. Quando terminou de ler estava apaixonada, não pela pessoa que havia escrito ou pela Susana do andar de baixo, a quem a carta havia sido endereçada, Ana estava apaixonada pelo papel em si, pelo cheiro da tinta e pela rigidez do risco. Dia pós dia deitou-se ao lado da folha amassada, sorrindo e ludibriando-se nesse momento estranho que trazia um certo desconforto e a deixava feliz.
Semanas passaram rápido e Ana já não se alimentava direito, estava magra e louca, percebeu que o papel começava a desfazer-se e como uma amante desesperada correu de um lado à outro do apartamento procurando uma solução, no ápice de sua insanidade, pegou a folha e enfiou goela abaixo, morrera sufocada.
Trauma pouco cerrou a beleza de Ana em antigos retratos felizes, amigos, família, namorado, tudo findava continuamente em uma vasilha de uvas e qualquer livro ruim.
Arrastava horas de sono e cafeina, estando sempre alerta demais ou dormindo, os maiores extremos de sua vida complicada e de seu enorme mundo, uma sala, dois quartos, dois banheiros e uma cozinha.
Uma maior excitação marcou o dia em que perdera a guerra, recebeu um envelope amarelo, estranhou e o abriu com rapidez, uma carta descrevendo carinho e respeito, palavras esquecidas por ela a muito. Quando terminou de ler estava apaixonada, não pela pessoa que havia escrito ou pela Susana do andar de baixo, a quem a carta havia sido endereçada, Ana estava apaixonada pelo papel em si, pelo cheiro da tinta e pela rigidez do risco. Dia pós dia deitou-se ao lado da folha amassada, sorrindo e ludibriando-se nesse momento estranho que trazia um certo desconforto e a deixava feliz.
Semanas passaram rápido e Ana já não se alimentava direito, estava magra e louca, percebeu que o papel começava a desfazer-se e como uma amante desesperada correu de um lado à outro do apartamento procurando uma solução, no ápice de sua insanidade, pegou a folha e enfiou goela abaixo, morrera sufocada.
domingo, 22 de agosto de 2010
Meu condão.
Desperta aconchego infinito em um único toque, quando há necessidade de tocar, compõe e faz em mim suave música. Meu condão não é extremo e nem pouco, somente o necessário à existência, dele e nossa.
Vezes ao léu abuso da oportunidade de lembrar que nesse momento só eu posso pensar nele, só eu posso abraça-lo fortemente e a reciproca é minha. Meu condão tem algo como um sopro de calmaria frente ao insuportável, e a pele macia qual só ele.
Meu condão não é mágico e tão pouco extraordinário, há nele a simplicidade que me agrada e a companhia que preciso, tem mais defeitos que qualidades e ainda assim é doce como um caminhar de mãos dadas. Meu condão tem um sinal na bochecha esquerda que me faz esquecer qualquer devaneio, é perfeito.
Hoje eu o amo incansavelmente e espero que esse hoje nunca acabe,
de mel.
Vezes ao léu abuso da oportunidade de lembrar que nesse momento só eu posso pensar nele, só eu posso abraça-lo fortemente e a reciproca é minha. Meu condão tem algo como um sopro de calmaria frente ao insuportável, e a pele macia qual só ele.
Meu condão não é mágico e tão pouco extraordinário, há nele a simplicidade que me agrada e a companhia que preciso, tem mais defeitos que qualidades e ainda assim é doce como um caminhar de mãos dadas. Meu condão tem um sinal na bochecha esquerda que me faz esquecer qualquer devaneio, é perfeito.
Hoje eu o amo incansavelmente e espero que esse hoje nunca acabe,
de mel.
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
À Deus,
E ao resto de meus amigos imaginários, eu peço qualquer objetivo ou motivação. Devo estar perdendo as maneiras certas e os impulsos. Quietude, quietude, quietude, só enxergo de relance o que outrora guiava esses pelos, falta pele pra arrancar e maquiagem pra borrar. Tudo agora acompanha um "só", eu só piso, eu só faço, eu só fumo, eu só respiro, ordinário demais.
Juro que sou um cadáver enrijecido acompanhando o fluxo de esperanças não minhas, compulsivamente planejando e realizando, que merda, uma merda de inexpressividade.
Ultimamente eu andei retratando cada comemoração simplista como se fosse a última festa, até briguei comigo por propor alguns ultrajes, estou morto e peço encarecidamente uma ressurreição.
Escrever só me é lembranças e lembrar machuca, então, por favor não me faça estar aqui de novo.
Ó Todo Imperfeito qual o amanhã é certeza, receba esse cuspe e compreenda-me, só quero meu próprio bem, meu próprio prazer, meu próprio eu.
Juro que sou um cadáver enrijecido acompanhando o fluxo de esperanças não minhas, compulsivamente planejando e realizando, que merda, uma merda de inexpressividade.
Ultimamente eu andei retratando cada comemoração simplista como se fosse a última festa, até briguei comigo por propor alguns ultrajes, estou morto e peço encarecidamente uma ressurreição.
Escrever só me é lembranças e lembrar machuca, então, por favor não me faça estar aqui de novo.
Ó Todo Imperfeito qual o amanhã é certeza, receba esse cuspe e compreenda-me, só quero meu próprio bem, meu próprio prazer, meu próprio eu.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Fosse, quem dera.
Ah, onde eu descanso é casa fria, gostosinha de ficar remoendo um café enfumaçado por horas e horas, se enrolando em cobertores depois de uma noite entregue às mãos, braços, pernas e outro corpo bem colado, uma noite entregue a ti. É sempre assim de manso, eu acordo primeiro e puxo devagar meus cabelos misturados aos teus, nunca te acordando, puxo da cama também um dos lençóis que ficaram de lado na madrugada.
Vou à ponta de unha até a cozinha, sonolento, abro a geladeira e escolho um suco, laranja, de manhã sempre laranja, pego um copo e dois pães carioquinhas, coloco naquelas bandejas de madeira que me obrigaste a comprar, vocês mulheres e seus caprichos.
Nesse dia acordei mais preguiçoso, desculpa amor, mas não esquentei o queijo, vai ficar friozinho mesmo, também é bom. Peguei a bandeja e andei até o quarto, tive que abandonar o lençol pelo caminho se não derrubava o suco, eu sou bastante desastrado né? Cheguei à cama, coloquei a bandeja em cima do criado mudo e estiquei a mão para ligar a TV, debrucei sobre o teu travesseiro espreguiçando-me, a realidade da ausência findava o sonho, você nunca estivera alí, como de desgosto aquela melancolia triste da vã saudade abateu meu rosto, endireitei-me cruzando as pernas e comecei a assistir os programas fúteis de domingo, uma brisa gélida entrou no quarto, comi o pão meio velho de anteontem recheado de queijo frio, tomei o suco igualmente gelado e desconfortável à nostalgia, fora a pior refeição de minha vida.
Vou à ponta de unha até a cozinha, sonolento, abro a geladeira e escolho um suco, laranja, de manhã sempre laranja, pego um copo e dois pães carioquinhas, coloco naquelas bandejas de madeira que me obrigaste a comprar, vocês mulheres e seus caprichos.
Nesse dia acordei mais preguiçoso, desculpa amor, mas não esquentei o queijo, vai ficar friozinho mesmo, também é bom. Peguei a bandeja e andei até o quarto, tive que abandonar o lençol pelo caminho se não derrubava o suco, eu sou bastante desastrado né? Cheguei à cama, coloquei a bandeja em cima do criado mudo e estiquei a mão para ligar a TV, debrucei sobre o teu travesseiro espreguiçando-me, a realidade da ausência findava o sonho, você nunca estivera alí, como de desgosto aquela melancolia triste da vã saudade abateu meu rosto, endireitei-me cruzando as pernas e comecei a assistir os programas fúteis de domingo, uma brisa gélida entrou no quarto, comi o pão meio velho de anteontem recheado de queijo frio, tomei o suco igualmente gelado e desconfortável à nostalgia, fora a pior refeição de minha vida.
domingo, 13 de junho de 2010
Preguiça.
Fora causa mortis de tão intensa, uma preguiça violenta de continuar aqui, sabe? Nesse mundo, rápido, escuro e convulso, algumas pessoas padecem ao tentar acompanhá-lo, percebe o quão difícil é? Milhões de notícias, milhões de anúncios e nenhum te alcança, você se torna um observador passivo, uma ilusão viva do que seria a vida, rogando preces e pragas contra pessoas e objetos, todos fazendo sua parte nesse universo turvo, somente tu te encontra de sorriso reto, enquanto fatidicamente vai se tornando a cada dia mais cinza.
Seus pelos começam a cair e o cabelo também, seu rosto expressa apenas o vazio, mal consegue se mexer mais, é um peso morto a quem te gosta, alguém te gosta? Expira a respiração e aos poucos começa a sentir dores quando se move, prefere então deixar de mexer-se, estava somente lá, de pés imóveis, de mente ininteligível, sentado no sofá, acabou esquecendo o que era, não lembrava se era humano ou apenas uma estátua, fazendo parte na decoração dessa casa torta, e alguns outros que passavam olhando-te também tinham essa dúvida, será? Realmente teus lábios já não balbuciavam e teu rosto enrijecido era tal quela estátua da Rua 11.
Como por fim já esperado, paraste de bater teu coração antes fraquinho, tua pele era escamosa e concretada, de olhos abertos sem pupila ou íris, era com certeza a estátua da Rua 11, teus parentes se é que estátua tem essas coisas se encontravam abobalhados perante aquilo, alguém roubara a estátua e deixara-a aqui, com certeza culpa dos moleques arruaceiros, malditos!
A solução era levar tu ou essa coisa até o lugar de onde roubaram. Um tio e um pai, cada um pega do lado, com cuidado para não quebrar, mas, ter cuidado com uma estátua? Haha, não mesmo, te levaram de qualquer jeito, batendo em quinas e quebrando extremos de teu corpo, quando chegaram ao lugar certo, te jogaram de mau agrado e até uma perna tua acabou se precipitando contra uma lata de lixo daquelas verdes também feitas de pedra, claro que a perna ficou desunida do corpo, o tio e o pai logo correram pra ninguém perceber, chegaram a casa e afirmaram que tudo ocorrera bem, e tudo estava bem mesmo, sem aquele peso estranho no sofá a vida da família seguiu seu curso, esqueceram de ti como se esquecem do que tomaram no café da manhã passada, o que restou? No sofá um amassado que durou dois dias.
domingo, 30 de maio de 2010
Encurtar o fim.
Parecia, para ela, até errôneo, dessa vez o contrário da normalidade acontecia, ela é que estava deitada em baixo da cama, se escondendo da própria raiva, era como se a cama estivesse deitada por sobre a garota, protegendo-a de qualquer mágoa maior. Sentia-se inutilmente apertada e segura, suas mãos arranhavam a madeira na parte de baixo do colchão, estava há horas ali, desperdiçando unha e sangue em troca de um possível retorno à sanidade. Algo realmente havia mudado, seus olhos suportavam enormes olheiras refletindo uma alma a muito cansada, incapaz de continuar, beirando o silêncio e a conformidade.
O descontrole emanado, a luta contra a própria sombra, o sentido escuso e cego da coroa perdida, é, não era mais rainha no coração de ninguém, nem no dela. Estava desgovernada, seu mundo perfeito entrara em queda, a tão forte e inabalável, derrubada por palavras de ofensa, quem diria? Da boca mil vezes ignorada, "Enfie esse andaime e essa belia no cu! Nunca e não mais, morto fotografado, só...”.
Para ela não estava tão morto assim, era de tal forma um calço, um chão seguro para se apoiar, aquele passado servia para deixá-la forte, sem ele a garota andava aos tropeços, sem direção ou sentido, enchendo-se de egoísmos, agora, encurtava-se cada vez mais, sangrando baixinho, esquecida.
O descontrole emanado, a luta contra a própria sombra, o sentido escuso e cego da coroa perdida, é, não era mais rainha no coração de ninguém, nem no dela. Estava desgovernada, seu mundo perfeito entrara em queda, a tão forte e inabalável, derrubada por palavras de ofensa, quem diria? Da boca mil vezes ignorada, "Enfie esse andaime e essa belia no cu! Nunca e não mais, morto fotografado, só...”.
Para ela não estava tão morto assim, era de tal forma um calço, um chão seguro para se apoiar, aquele passado servia para deixá-la forte, sem ele a garota andava aos tropeços, sem direção ou sentido, enchendo-se de egoísmos, agora, encurtava-se cada vez mais, sangrando baixinho, esquecida.
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