terça-feira, 22 de junho de 2010

Fosse, quem dera.

Ah, onde eu descanso é casa fria, gostosinha de ficar remoendo um café enfumaçado por horas e horas, se enrolando em cobertores depois de uma noite entregue às mãos, braços, pernas e outro corpo bem colado, uma noite entregue a ti. É sempre assim de manso, eu acordo primeiro e puxo devagar meus cabelos misturados aos teus, nunca te acordando, puxo da cama também um dos lençóis que ficaram de lado na madrugada.
Vou à ponta de unha até a cozinha, sonolento, abro a geladeira e escolho um suco, laranja, de manhã sempre laranja, pego um copo e dois pães carioquinhas, coloco naquelas bandejas de madeira que me obrigaste a comprar, vocês mulheres e seus caprichos.
Nesse dia acordei mais preguiçoso, desculpa amor, mas não esquentei o queijo, vai ficar friozinho mesmo, também é bom. Peguei a bandeja e andei até o quarto, tive que abandonar o lençol pelo caminho se não derrubava o suco, eu sou bastante desastrado né? Cheguei à cama, coloquei a bandeja em cima do criado mudo e estiquei a mão para ligar a TV, debrucei sobre o teu travesseiro espreguiçando-me, a realidade da ausência findava o sonho, você nunca estivera alí, como de desgosto aquela melancolia triste da vã saudade abateu meu rosto, endireitei-me cruzando as pernas e comecei a assistir os programas fúteis de domingo, uma brisa gélida entrou no quarto, comi o pão meio velho de anteontem recheado de queijo frio, tomei o suco igualmente gelado e desconfortável à nostalgia, fora a pior refeição de minha vida.

domingo, 13 de junho de 2010

Preguiça.


 Fora causa mortis de tão intensa, uma preguiça violenta de continuar aqui, sabe? Nesse mundo, rápido, escuro e convulso, algumas pessoas padecem ao tentar acompanhá-lo, percebe o quão difícil é? Milhões de notícias, milhões de anúncios e nenhum te alcança, você se torna um observador passivo, uma ilusão viva do que seria a vida, rogando preces e pragas contra pessoas e objetos, todos fazendo sua parte nesse universo turvo, somente tu te encontra de sorriso reto, enquanto fatidicamente vai se tornando a cada dia mais cinza.
 Seus pelos começam a cair e o cabelo também, seu rosto expressa apenas o vazio, mal consegue se mexer mais, é um peso morto a quem te gosta, alguém te gosta? Expira a respiração e aos poucos começa a sentir dores quando se move, prefere então deixar de mexer-se, estava somente lá, de pés imóveis, de mente ininteligível, sentado no sofá, acabou esquecendo o que era, não lembrava se era humano ou apenas uma estátua, fazendo parte na decoração dessa casa torta, e alguns outros que passavam olhando-te também tinham essa dúvida, será? Realmente teus lábios já não balbuciavam e teu rosto enrijecido era tal quela estátua da Rua 11.
 Como por fim já esperado, paraste de bater teu coração antes fraquinho, tua pele era escamosa e concretada, de olhos abertos sem pupila ou íris, era com certeza a estátua da Rua 11, teus parentes se é que estátua tem essas coisas se encontravam abobalhados perante aquilo, alguém roubara a estátua e deixara-a aqui, com certeza culpa dos moleques arruaceiros, malditos!
 A solução era levar tu ou essa coisa até o lugar de onde roubaram. Um tio e um pai, cada um pega do lado, com cuidado para não quebrar, mas, ter cuidado com uma estátua? Haha, não mesmo, te levaram de qualquer jeito, batendo em quinas e quebrando extremos de teu corpo, quando chegaram ao lugar certo, te jogaram de mau agrado e até uma perna tua acabou se precipitando contra uma lata de lixo daquelas verdes também feitas de pedra, claro que a perna ficou desunida do corpo, o tio e o pai logo correram pra ninguém perceber, chegaram a casa e afirmaram que tudo ocorrera bem, e tudo estava bem mesmo, sem aquele peso estranho no sofá a vida da família seguiu seu curso, esqueceram de ti como se esquecem do que tomaram no café da manhã passada, o que restou? No sofá um amassado que durou dois dias.