terça-feira, 7 de setembro de 2010

Impressão

Uma pequena fixação por importância, gestos simples que demonstram insegurança, arte e talvez demasiada carência, faziam Ana distanciar-se das grades da janela. Essa fobia, qual não outra, enterrava no silêncio de seu quarto a percepção surda de uma coragem atrofiada.
Trauma pouco cerrou a beleza de Ana em antigos retratos felizes, amigos, família, namorado, tudo findava continuamente em uma vasilha de uvas e qualquer livro ruim.
Arrastava horas de sono e cafeina, estando sempre alerta demais ou dormindo, os maiores extremos de sua vida complicada e de seu enorme mundo, uma sala, dois quartos, dois banheiros e uma cozinha.
Uma maior excitação marcou o dia em que perdera a guerra, recebeu um envelope amarelo, estranhou e o abriu com rapidez, uma carta descrevendo carinho e respeito, palavras esquecidas por ela a muito. Quando terminou de ler estava apaixonada, não pela pessoa que havia escrito ou pela Susana do andar de baixo, a quem a carta havia sido endereçada, Ana estava apaixonada pelo papel em si, pelo cheiro da tinta e pela rigidez do risco. Dia pós dia deitou-se ao lado da folha amassada, sorrindo e ludibriando-se nesse momento estranho que trazia um certo desconforto e a deixava feliz.
Semanas passaram rápido e Ana já não se alimentava direito, estava magra e louca, percebeu que o papel começava a desfazer-se e como uma amante desesperada correu de um lado à outro do apartamento procurando uma solução, no ápice de sua insanidade, pegou a folha e enfiou goela abaixo, morrera sufocada.

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